Veja Também
Carregando...

Distúrbios Comportamentais dos Equinos



Maria Claudia Martins Guerra Miranda
Paula Gomes Rodrigues


Os eqüinos modernos possuem impressionante capacidade de se adaptar aos diversos ambientes e situações impostos pelo homem. A figura do cavalo, que anteriormente estava associada às necessidades do homem, está hoje muito mais ligada aos esportes e ao lazer, principalmente em países desenvolvidos, e como o cavalo confere status e ostentação ao seu proprietário, esta situação deve permanecer por muito tempo. Face à sua inter-relação com o ser humano, os eqüinos ficam sujeitos aos caprichos do homem que, alterando seu habitat e modo de viver, acaba por provocar problemas comportamentais que muitas vezes são irreversíveis. Estas modificações podem ocorrer por causas psicológicas, fisiológicas e como conseqüência da seleção genética. O comportamento de um animal é determinado pelas particularidades de construção do seu organismo e está intimamente relacionado com a capacidade funcional do sistema nervoso central, dos órgãos sensoriais, das glândulas endócrinas, do aparelho locomotor e do sistema digestivo. O desempenho dos diversos sistemas e com isto as peculiaridades comportamentais ligadas à espécie são determinados em grande parte geneticamente, mas podem ser modificados até certo grau pelo meio ambiente.



Alterações de comportamento, causas e tratamentos

O cavalo sempre foi um animal gregário, vivendo em comunidades. Se separado do seu grupo, forçado a se comportar como indivíduo sem um líder, perde a referência. A presença do líder é fundamental. O temperamento eqüino não está associado à tomada de decisões e ações por vontade própria. Quando forçado a tomar decisões, isto acontece de forma desfavorável e prejudicial à sua sobrevivência. Ao ser obrigado a viver sozinho em baias ou em pequenos piquetes, sem outros animais da mesma espécie, o eqüino toma como referencial e líder o homem mais próximo, aquele que o alimenta, o treina e determina como deve agir. Os problemas de comportamento mais comumente encontrados nos eqüinos podem ser divididos em três categorias: vícios, agressividade e distúrbios sexuais, os dois primeiros ocorrendo principalmente em animais estabulados e o terceiro por causas que são, na sua maioria, independentes do sistema de criação.

Vícios

Os cavalos selvagens gastam de 60 a 70% do seu tempo pastando. O restante do tempo é gasto observando outros animais, acariciando-se uns aos outros, brincando ou andando à procura de novas áreas de pasto. Já os animais estabulados passam a maior parte do tempo parados e desenvolvendo vícios, com pequena parte do tempo gasto se alimentando ou se distraindo. Desta forma, os vícios podem ser resultado, principalmente, do nervosismo, desconfiança, temor, stress, deprivação social, medo, frustração, genética, tipo de dieta, curiosidade, aborrecimento e imitação a outros animais. A ociosidade é a principal causa, já que por natureza, o eqüino é um animal que necessita de grandes áreas, ficando de certa forma limitado com a domesticação.

  • Morder Madeira

A atitude de morder madeira das portas das baias pode ser considerada normal, quando comparada com o comportamento do animal selvagem que, em certas ocasiões, morde cascas de árvores. Porém, em um animal estabulado, tal vício é altamente indesejável, por ser freqüente e pela possibilidade de causar prejuízos como irritações intestinais, cólicas, problemas dentários, entre outros, além dos prejuízos com a manutenção das instalações. De acordo com diversos autores, as principais causas deste distúrbio são o tédio, as deficiências de minerais na dieta, a limitada quantidade de forragens fornecida. Para reduzir o vício de morder madeira, foi recomendado ocupar ao máximo o tempo dos cavalos, além de se verificar a composição da dieta. Isso pode ser feito soltando os animais em piquetes aumentando a carga de exercícios, a quantidade de gramíneas fornecida e o número de vezes que se fornece a ração. 

  • Aerofagia
A aerofagia, o ato de engolir ar, tem como causa principal o tédio que acomete cavalos estabulados. Os principais problemas causados por este vício são cólicas gasosas e desgaste excessivo dos dentes, podendo causar, ainda, perda de peso. Este hábito é freqüentemente copiado por outros eqüinos e, após adquirido, dificilmente pode ser eliminado. Os melhores métodos para evitar ou amenizar a aerofagia seriam colocar o animal em companhia de outros em piquetes, aumentar o número de exercícios, mas sem excesso, fornecer mais feno ou gramíneas verdes pouco picadas, ou seja, manter o animal ocupado por mais tempo. Se não resolvido, soluções drásticas podem ser tentadas como, por exemplo, colocar cinta para aerofagia. 

  • Coprofagia

A coprofagia (ato de comer fezes) é também um vício encontrado nos eqüinos estabulados. Os potros de duas a cinco semanas de idade podem apresentar este comportamento devido ao desenvolvimento do processo de seleção alimentar, para estabelecimento de sua flora bacteriana e suplementação de vitaminas do complexo B. Porém, esta atitude é preocupante quando ocorre em animais adultos, pois pode causar infestações parasitárias, transmissão de doenças e cólicas. Dietas deficientes em proteínas (com menos de 10%) e com pouca quantidade de alimentos volumosos podem também causar a coprofagia. O feno fornecido aos potros a partir do segundo mês de vida, ou no início da estabulação, quando iniciam a ingestão do mesmo, deve ser de boa qualidade e em quantidade adequada, pois, caso contrário, os animais podem ingerir material da cama da baia, adquirindo o vício da coprofagia. O fornecimento de boa qualidade e correta quantidade de alimentos, principalmente de volumosos não peletizados, divididos em varias porções diárias, pode evitar ou eliminar esta alteração de comportamento, pois os animais passarão a maior parte do tempo se alimentando.

  • Sacudir a cabeça

O sacudir lateral da cabeça é um comportamento natural para defender-se contra insetos irritantes. Entretanto, pode se tornar um vício quando manifestado durante a colocação de cabresto ou cabeçada, ou surge repetidamente durante um trabalho. O sacudir vertical da cabeça é um movimento geralmente executado enquanto sozinho na cocheira, num estado de sonolência. Ambos os problemas podem ser causados por afecções de ouvido ou da área nasal.

  • Bater o pé

O bater ou arranhar repetido com os anteriores leva a desgaste desigual das ferraduras ou dos cascos, bem como o desnivelamento do piso do box. Este hábito se manifesta em: animais confinados, durante a antecipação da alimentação dou de outra atividade, durante viagens em trailler ou caminhão. Casos extremos podem ser prevenidos pela colocação de peias, o que no entanto é um recurso que deve ser empregado por pessoas experientes, para evitar acidentes.

  • Bolear

O cavalo empina, atirando-se bruscamente para trás e cai de costa ou de flanco. Recomenda-se o emprego da gamarra para corrigi-lo, o que nem sempre da resultado. Adota-se também a pratica de se faze-lo bolear  repetidas vezes a beira de um rio, açude ou lagoa de relativa profundidade. Dessa forma as orelhas do animal enchem de água o que o faz adquirir um reflexo de defesa inibindo o boleio. É um vicio grave por que não raras as vezes o animal bate forte mente a cabeça no solo produzindo fraturas que podem ser mortais.

  • Manotear

É o golpe brusco e agressivo dado com os menbros anteriores do cavalo. Assemelha-se ao coice sendo um pouco menos forte .

  • Corcovear
É o vicio de saltar repetida e desordenadamente, arqueando o dorso e abaixando a cabeça com o objetivo de derrubar o cavaleiro.  Pode ser um comportamento de defesa quando o cavalo é sensível a cócegas, cruelmente cutucado por esporar ou ferido por corpos estranhos.

  • Escoicear

É o golpe brusco dado para trás com um ou dois membros posteriores, podendo ser uma vez ou repetidas vezes. Para acabar com este vicio o melhor processo é colocar uma cabeçada provida de duas correias, cada uma passando por uma anel da cilha e indo fixar-se na quartela correspondente. Ao escoicear, o animal se aplica um forte golpe no focinho, proporcional a violência que impulsionou o coice.

  • Morder

O vicio de morder decorre de ma índole, caráter irascivel, vingança ou represaria a maus tratos. Corrige-se este vicio com paciência e bons modos.

  • Negar estribo

O cavalo oferece dificuldade de toda espécie ao cavaleiro para montar. Corrige-se este vicio com paciência e bons modos.

  • Estirar

É o recuo do animal amarrado, praticado com violência, no intuito de livrar-se da cabeça ou do cabo que o prende. Pode ainda acontecer quando se quer amarrar um animal. Geralmente o cavalo consegue arrebentar a corda caindo de costas. Conbate-se por meios de carinhos, afagos no pescoços, peito ou pela retenção por buçal forte.

  • Estufar ou encher de vento

É o vicio de encher a barriga de ar no momento em que se aperta a cilha, de modo em que a cela se afrouxa tão logo o animal relaxe os músculos ventrais.

  • Comedor de cola

É o ábito de comer as crinas, geralmente da cauda, de outros animais.

  • Outros vícios de estábulo

Assim como os vícios acima citados, os que envolvem os membros dos animais, como andar, pular e escoicear a baia, também podem provocar danos ao eqüino e devem ser evitados. Para tal, a atitude mais importante a ser tomada seria evitar a ociosidade do animal estabulado, com dietas corretas e exercícios diários

  • Agressividade

A agressividade é um dos problemas de comportamento mais freqüentes nos eqüinos. Sua grande importância se deve aos riscos de causar danos ao homem e a outros animais. As agressões ao homem podem ser resultado do medo ou da resistência, demonstrada através do sentimento de dominância sobre as pessoas. O cavalo estabulado, não tendo oportunidade de fugir, quando sente algum medo, age como agiria o cavalo selvagem em grandes áreas, isso é, para sua autodefesa, torna-se agressor. Os eqüinos podem sofrer também de claustrofobia natural, pois, como são uma espécie que tem o meio ambiente natural composto por grandes áreas, quando presos em baías podem se tornar agressivos ao sentirem pânico. Alguns animais são agressivos somente em certas situações, como quando estão comendo, durante o estro (cio), no manuseio da cabeça ou membros, na baia ou quando são capturados no pasto. A agressão pode ocorrer com pessoas ou com animais, porém a agressividade entre eqüinos é normalmente resultado da disputa de dominância, que determina qual animal será o primeiro a ter acesso ao alimento ou qual irá guiar o rebanho. Para que seja possível o controle da agressividade faz-se necessário que seja diagnosticada a causa do comportamento e o tipo de agressão. A punição às vezes pode ser utilizada nos primeiros momentos após atitude incorreta. Porém, não se deve exceder, pois se mal aplicada, leva ao aumento da agressividade. Por outro lado, as recompensas são de muita eficácia, principalmente em casos mais leves de agressão, ou quando alternadas com uma leve punição. A melhor recompensa para o eqüino é o alimento. Para animais mais agressivos, um tratamento mais drástico pode ser aplicado, colocando-os em baías escuras, sem alimento. 0 animal passa a receber luz e alimento das mãos de uma única pessoa, aumentando a oferta de luz e alimento na medida em que for se acalmando. A presença de outro eqüino durante o tratamento pode ajudar.

Tratamento do mau comportamento:

As modificações de comportamento usando o reforço positivo podem ter sucesso com alguns cavalos agressivos. O reforço negativo pode ser necessário em casos mais severos. A melhor abordagem para o manejo de vícios e de problemas de comportamento é prevenir seu surgimento. Os vícios de cocheira podem ser prevenidos através de um manejo estimulante, planejando rotinas de treinamento e de manejo de acordo com as necessidades naturais dos cavalos. As necessidades psicológicas e fisiológicas do cavalo são as de um animal de manada em constante pastejo e socialmente interativo, e não as de um que seja alimentado duas vezes por dia e mantido isolado de seus congêneres numa cocheira escura. A variação individual tem um grande papel no surgimento, tratamento e prevenção dos maus comportamentos dos eqüinos. É claro que a aceitabilidade ou não de determinado comportamento num animal dependerá da opinião de quem é responsável por ele. 
Além do componente genético, as alterações de comportamento dos eqüinos podem ocorrer: por causas diversas como estresse, transporte e, principalmente, pela influência do ser humano. As mais prejudiciais à saúde do eqüino estabulado são agressividade, hábito de morder madeira, coprofagia e aerofagia. Os vícios de estábulo devem ser prevenidos através do manejo adequado. Exercícios diários, convivência em grupo, dietas corretamente balanceadas e fornecidas são medidas que visam reduzir a ociosidade, solidão e possíveis deficiências nutricionais dos eqüinos, sendo que as dietas oferecidas com menor proporção de concentrado e o volumoso fornecido na forma "in natura" (verde, não muito picado) são indicadas.
  
Referências bibliográficas

HONTANG, Maurice. A psicologia do cavalo – 1; inteligência e aptidões; tradução Aristeu Mendes Peixoto; – RJ: Globo, 1998 (Coleção do agricultor. Equinos)(Publicações Globo Rural).

HONTANG, Maurice. A psicologia do cavalo – 2; metodologia do trabalho; tradução Aristeu Mendes Peixoto; – RJ: Globo, 1998 (Coleção do agricultor. Equinos)(Publicações Globo Rural).

ROBERTS, Monty.; O Homem que ouve cavalos; tradução de Fausto Wolff; revisão técnica, Laura Rosetti Barreto Ribeiro. - 3a ed – RJ; Bertrand Brasil, 2002.